
Todos vão morrer! Isso é um fato. Porém quantas pessoas se preparam para tal, ao invés de deixar esse acontecimento inevitável nas mãos de outras pessoas? Preparar sua própria morte pode ser o único ato que permite que uma vida digna possa terminar de uma forma digna. Para mim, a pior desgraça que pode me acontecer, é morrer sem intenção. E assim fui…
Escolhi um cemitério como se escolhesse uma roupa especial para sair à noite. Caminhei por entre túmulos e esculturas fascinantes – pelo silêncio de vidas breves e frágeis -. Pesquisei preços, caixões, mortalha e por fim desisti de tudo isso – tenho pavor de flores em caixão, acho muito fedorento. Aquele cheiro acompanha quem vai ao velório para o resto de suas vidas. Tenho pavor também de me visualizar ali, naquela posição horizontal, preso enquanto pessoas lamentam e choram ao meu redor. Não queria essa ultima tortura. Então desisti de tudo. Optei por ser cremado e minhas cinzas jogadas ao mar, em um ritual alegre, se possível, com música das mais animadas -. De inicio achei o mar uma opção bem clichê. Porém no mar, minhas cinzas ficariam em constante movimento, o que de forma poética, imprimia uma mensagem otimista, que somada à imensidão dos oceanos, poderia trazer conforto aos que ficariam em vida.
Ai pensei – ora, no mar, não terei um templo onde as pessoas possam ir ate lá colocar flores ou falar sozinhas acreditando estar falando comigo -. Então, negociei um pequeno espaço em um cemitério horizontal, daqueles que parecem um jardim. Ali não ficará meu corpo ou minhas cinzas. Ali será enterrada uma urna com as folhas do meu diário. Com um punhado de sentimentos que nunca foram ou serão compartilhados. Assim as pessoas que forem até ali, poderão enterrar junto aos meus sentimentos, os seus. E compartilharemos segredos sempre que necessário.
O próximo passo foi orçar isso tudo e guardar o dinheiro em um lugar seguro. Ai vem à parte difícil; escrever uma carta de despedida. Como escrever uma carta de despedida se nem sei quando irei morrer. Pode ser agora ou daqui a anos e anos. Daí comecei a ficar preocupado. Ainda mais agora, que estão criando um monte de técnicas para fazer com que o Ser Humano viva cada vez mais e mais. Surgiu uma preocupação nova, mas que sempre esteve comigo; como irei morrer?
Algumas hipóteses foram pensadas. Posso me esforçar para fincar raízes na sociedade. Estudar até não agüentar mais, arrumar um emprego que me de estabilidade. Usufruir do entorpecimento consumista. Pagar anos de planos de saúde e de aposentadoria. Construir uma carreira de sucesso, me apaixonar, casar e ter filhos. Criar meus filhos, os ver crescer, passar todos os perrengues e felicidades dessa opção familiar e em algum momento, morrer. Seja de velhice, ou algum problema pulmonar, do coração, tumor, câncer, algo que pare de funcionar e por fim termine com a minha vida. Poderia também morrer de acidente, atropelamento, uma bala perdida ou batida de carro, ônibus. Não sei. Algo assim. Todas essas hipóteses me assustam pelo seguinte; vai acontecer em um dia ensolarado, que terei acordado cheio de energia, querendo viver intensamente e de repente, serei pego de surpresa e antes que eu possa fazer algo, estarei morto. Não quero isso. Essa hipótese esta descartada. E foi nesse momento que fui dando ouvido a pensamentos ocultos, mas que também sempre estiveram em algum lugar na minha cabeça; a auto-extinção.
A auto-extinção consiste em preparar sua morte, incluindo planejar a morte pelas suas próprias mãos. Essa modalidade fatal é comumente tratada como suicídio. Que vale lembrar: é crime. Porém sempre gostei dos suicidas. Apesar da maciça corrente de especialistas e autoridades legais se esforçarem para deslegitimar, condenar e criminalizar o suicídio. Vejo o ato como um dos atos mais honestos do sujeito racional.
Nas sociedades antigas, o suicídio era legítimo, como na Grécia e em Roma. O Humano que não estava interessado em viver, procurava o Estado para expor as suas razões e o Senado dava a autorização para a sua extinção, bem como oferecia os meios técnicos para a finalidade letal. Com a instalação do cristianismo, a sociedade passou a exercitar um grau de maldade nunca antes experimentado. O Humano é obrigado a viver, um auto- aniquilamento lento e revestido de ocultismo. O suicida passa a ser tratado como um doente ou algo totalmente macabro. Viver é digno. A morte, não.
Pensei então. Farei da minha morte o ultimo ato de rebeldia e dignidade. A morte como arte. Não daquelas que pode ser comprada em leilões, galerias de arte ou apreciada em museus por um monte de gente estranha que jura entender o artista. Quero uma arte, que tenha apenas o meu Ser como público; apreciador e autor. Até porquê, ter a sensação de que você pode se excluir de tudo, se desligar a qualquer momento de todo o jogo, pode ser a única forma de se manter vivo.
Quando vier a primavera
se eu já estiver morto,
as flores florirão da mesma maneira
e as árvores não serão menos verdes
que na primavera passada.
Sinto uma alegria enorme
ao pensar que a minha morte
não tem importância nenhuma.
( Fernando Pessoa )
Por Roosevelt Soares – para quem programou se matar aos 16 anos e chegou até os 20. Para quem programou se matar aos 26 e vai passar dos 30…














