Hare Hype

Carlos é analista de sistemas e passa a maior parte do seu dia ouvindo psy-trance enquanto sonha com dias melhores no meio “trancer”. Desde 2005, Carlos anda lamentando a excessiva comercialização das festas e sua conseqüente perca de conceito. Para Carlos, o trance é uma filosófia de vida, quase uma religião, guiada pelas visões adquiridas através de experiências de expansão da consciência. Uma moderna ferramenta de transcendência, de elevação espiritual e de materialização de uma nova percepção.

- Quando estou dançando, me entregando ao transe. Minha mente dissolve todas as barreiras que são criadas na vida cotidiana. Pois não existem barreiras. As ferramentas de dominação social que as cria e as instala em nossa mente. Somos condicionados a acreditar nisso e naquilo. E quando estou em transe. Eu visualizo meu eu primitivo. Meu universo interno se desagrega do externo. A energia flui. Meu corpo é meu espírito. E meu espírito fica livre para voar por todos os caminhos. Não há um guia. Não há placas. É um voou guiado por forças sagradas, que sempre estiveram comigo e que o caos materialista da vida cotidiana, me impede de acessar. E esse sentimento é mágico. É poderoso. – desabafa Carlos.

Já para Marina Lins. Estudante de psicologia e amante fervorosa do psychedelic trance. Tudo se resume em uma única palavra: diversão!

- Amo a cultura alternativa. As festas e festivais de Trance, pois sempre saio delas com minhas energias renovadas. Mas não tenho nenhum laço com elas, além da diversão. Não freqüento os espaços tido como culturais ou esotéricos. Que são importantes. Mas não me atraem. Quero só dançar e interagir com as pessoas do dancefloor. Elas sim me inspiram.

Apesar dessa fala de Marina. Ela já foi hippie, já dançou com índios na Amazônia. Ocasião em que pode participar do ritual do Daime (ayahuasca). Já largou sua vida na cidade e foi morar em uma ecovila no meio de Alto Paraíso – a meca brasileira dos viajantes místicos.

- Nessa época eu sonhava com um caminho alternativo. Onde a guerra diária pela sobrevivência, não tivesse que fazer com que o Ser humano, precisasse levantar todas as manhãs para se vender. Vender metade de sua vida, de seus sonhos. Por um punhado de moedas e com isso se virar para comer, beber, ter diversão, estudar, pagar as contas e materializar o que lhe foi permitido sonhar.

O Trance me vestiu perfeitamente. Tinha encontrado a minha família – diz Marina com um sorriso no rosto – Na verdade foi apenas uma fase de autoconhecimento. Foi ótimo enquanto durou – resume Marina sem perder o brilho de seus olhos.

Marina acredita que vivenciou um delírio de interpretação. E durante um insight percebeu que sua busca pela expansão da consciência, provocou exatamente o estreitamento da mesma. Um mecanismo que segundo ela, servia para manter o efeito de transe, já que negando a realidade, a única que sobrava, é a que o sujeito estava objetivando. Não havendo expansão, ou elevação. Segundo ela, é um erro vulgar e muito comum.

– Fui me condicionando a virar um símbolo, um estereótipo que fazia com que as pessoas que me observassem, soubessem mais de mim do que eu poderia supor. Foi quando comecei a me perguntar. Quem vive simbolicamente? Acho que as festas se tornam ingênuas de forma aproveitadora, quando começam a agir como se fossem a luz no fim do túnel e se tornam obcecadas pelo passado. Vivi no meio de pessoas que se julgavam melhores, que sabiam o que é melhor para o mundo. Mas a única resposta que eles foram capaz de dar ao mundo, era o isolamento e negação. Não acredito nisso. Sei onde ir, como fazer e o que não devo fazer. Na adolescência, passamos por uma fase de descoberta, de autodescobrimento e de afirmação de nossa personalidade. Antigamente tínhamos os roqueiros, pagodeiros, funkeiros e outros estilos, que são perfeitos para suprir a necessidade nessa fase da vida. Hoje temos também o Psy-Trance. O Ser Humano vive em transformação. Acho natural ter festas, raves, que trabalhem essa demanda por afirmação da personalidade. A materialização dessas festas, dessa corrente de pensamento, é uma forma de a pessoa existir. E isso é legitimo. Mas de que me serve essas experiências, quando me nego a servir de molde?

Carlos afirma que sua vida mudou completamente com suas experiências psicodélicas ao som do Trance.

- Me tornei mais espiritualizado e inspirado. Consigo compreender melhor o mundo e aceitar ângulos que antes se não estivessem de acordo com a minha forma de pensar, eu não conseguiria aceitar. Me tornei mais “cabeça aberta”. Da paz mesmo. Freqüento as celebrações trancer, como parte de uma meditação coletiva poderosa de transformação. Não só minha. Mas do meio externo também. Através da arte, os estímulos perceptivos nos elevam a um nível alterado. Visualizamos as pontes que são encobertos pela nossa rotina diária. E estamos ali; dançando, interagindo, meditando e dissolvendo ao mesmo tempo todos os problemas.

Carlos e Marina são modelos da ruptura de paradigmas que estamos vivenciando com as festas Trance. Enquanto parte do publico foi atraída em busca de uma experiência transcendental e psicodélica, outros vieram somente em busca de uma aventura divertida. Nesse movimento, uma quase guerra santa ainda resiste, separando os inside dos outside, iniciados, e novatos. E isso se reflete no mercado, com produtores interessados em movimentar esse imaginário. Com festas conceito e festas comerciais. Na maioria dos casos, realizadas pelos mesmos produtores tanto de uma quando da outra. O bom de tudo isso, é que no final, todos dançam ao mesmo som. E um movimento completa o outro.

- Moro no centro de São Paulo. Tenho uma vida que depende do trabalho de outras pessoas, como do meu dependem outras. Depois de cada festa ou festival, eu volto para o meu apartamento. E de la eu posso elevar meu espírito. Mas é com meu corpo físico que eu sobrevivo. E tudo isso, de sociedade alternativa, de expansão da consciência forçada pela ingestão de um substancia… na pratica não ajudam. Não posso considerar como opção, uma pratica que só funcione para um grupo limitado de pessoas e de forma forçada. Não sou uma xamã. Uma Buda. Uma eremita. Vivo o mundo real. E fico chateada quando vejo, por exemplo, alguém usar um discurso religioso, místico, para se utilizar de uma substancia alteradora da percepção. Isso é falso. Ou você pratica essa religião, aquela realidade mística, ou então é apenas um pervertido cultural. Por que ao invés de contratar um palestrante que fale sobre religiões arcaicas e substancias alteradoras da percepção, não se juntam especialistas e publico para solucionar, por exemplo, o problema da falta de médicos em hospitais públicos. Do escoamento das águas das chuvas que é precário, pois o povo não sabe como cobrar pelo tratamento dos resíduos. Sabe… não é util. É uma cultura da fantasia.

Marina entrou em todo esse universo alternativo e transcendental, a procura de uma revolução. Hoje após muitas vivencias, prestes a se formar em psicologia e muito bem integrada ao meio urbano. Marina enxerga a mistura cultural que circula nas festas e festivais Trance, como uma ferramenta incapaz de sair do plano simbólico – No fim é tudo entretenimento – completa Marina.

Carlos já enxerga tudo com outros olhos. Ele não nega que gosta de ter um relacionamento metafísico com a Cultura Trance – Nós somos a mudança que nós procuramos – declara ele.

E você. Como se relaciona com toda essa mescla cultural?

Por Roosevelt Soares.

Diretamente da cova dos estupradores do amanhã.

Fonte: www.plurall.com

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